Sexta-feira, Agosto 29, 2008

A Estranha “Missão” do Badajoz

Por Jorge Cabral
Em Missirá existiam sempre cinco ou seis adidos. Um enfermeiro, um cozinheiro, um motorista, dois soldados dos Morteiros e às vezes um mecânico, como o célebre Pechincha. Vinham de Bambadinca, cumprir uma espécie de castigo, pois Missirá representava o isolamento, o mato e o perigo.Chegavam receosos e um pouco atarantados, mas, passado algum tempo, parecia que o castigo se transformara em prémio e já ninguém queria regressar. Gostavam de ali estar, naquele quartel–tabanca, onde muitos nem sequer se fardavam e quase não existia hierarquia.Porém, no primeiro dia todos se haviam sentido apreensivos. O Alferes recebia-os formalmente com um discurso incompreensível e confiava-lhes uma “missão”, sempre absurda.As “missões” inspiravam-se nas discussões, manias e cismas vigentes na altura e podiam consistir nas mais disparatadas obrigações.Assim, a um porque alguém jurara ter visto o avião turra, foi determinada a observação aérea todos os dias entre o meio-dia e as seis da tarde. Outro foi incumbido de vigiar e contar os macacos que costumavam reunir na pequena elevação fronteira, pois o Amaral (***) alvitrara que o aumento do seu número significaria um ataque iminente.Já em Maio de 71, apresentou-se o Badajoz, grande louco ou perfeito simulador, que passara por Bolama onde fizera a recruta por via de uma pena sofrida em Elvas, estacionara em Bissau, e lá por duas vezes, tentara embarcar de regresso à Metrópole, acabando na CCS [, Companhia de Comandos e Serviços,] de Bambadinca a aguardar “melhoras”. Claro que o da CCS/BART 2917,] logo o mandou para Missirá…Tal como a todos os outros foi necessário confiar-lhe uma “missão”. Ora na época, a discussão que nos ocupava a todos, era a resposta à importante questão: Porque mijam as mulheres de pé, e os homens de cócoras? Quanto às mulheres, o assunto não constituía novidade pois o Monteiro afiançara que na terra dele também as velhas tinham esse costume. Sobre os homens sim. Para mijarem de cócoras não encontrávamos explicação.Encontrá-la foi a “missão” do Badajoz, que a levou muito a sério… Infelizmente não teve tempo. Quinze dias depois veio a ordem. Baixou à Psiquiatria. E nós lá continuámos sem resposta…Curiosamente foi na véspera do [meu] regresso que tive notícias do Badajoz. Era a minha última noite em Bissau. Bebia, discursava, declamava…Conhecidos e desconhecidos, juntavam-se na minha mesa. De Missirá nenhum ouvira falar… Um Alferes médico psiquiatra lembrou-se porém de um Soldado que lá dissera ter estado. Declarado incapaz, passara à peluda.- Um caso perdido… Metia-se na casa de banho a espreitar os africanos a mijar….Jorge Cabral

2 comentários:

Nuno Poiares disse...

Dr. Jorge Cabral,

Boa noite.

Chamo-me Nuno Poiares, sou mestre em Sociologia (Universidade de Évora), licenciado em Ciências Policiais (ISCPSI, Lisboa) e aluno do 5.º ano de Direito/Ciências Jurídico-Forenses (FDULHT) e gostava de obter alguns esclarecimentos relativamente às actividades do Instituto de Criminologia da ULHT. Aproveito a oportunidade para lhe dar a conhecer o meu blogue "Das Ciências Forenses": http://nuno-poiares.blogspot.com/

Cumprimentos,

NP

Vinicius Alves Gasparotto disse...

Olá, assistente social
meu blog
questaosocialpuc.blogspot.com/