Sexta-feira, Abril 04, 2008

O Alferes, o piano e a Professora


** Para os mais desatentos o Prof Jorge Cabral é o Senhor de barbas ok?

O Alferes, o piano e a Professora

Em Maio de 71, o apanhanço do Alferes excedera todos os limites. Os Amigos da CCAÇ 12 haviam partido e ele, com os seus vinte e três meses de mato, refinara a excentricidade, espantando agora os periquitos de Bambadinca.

Naquele dia resolvera visitar a Professora. Com que intenção, não sei. Líbido? Mera curiosidade? Alguma aposta? Talvez de tudo um pouco… e se viesse à rede… pois então…Bateu à porta e logo a amarelenta dama, que parecia saída de um filme de Fellini, lhe franqueou a entrada, num sorriso de Admiração.- O Senhor Alferes de Missirá! Entre!-

Venho pedir conselhos sobre a Escola. (... Depois blá, blá, blá, da didáctica, dos fulas, dos mandingas, da Guiné antes da Guerra…)- E que fazia o Senhor na vida civil? - perguntou ela.Nem hesitou o Alferes. Com um ar sonhador, apontou o piano que ali jazia ao canto, e disparou:- Pianista!!!

Quase pulou a Professora. Brilharam-lhe os olhos e, como uma criança, bateu palmas.- Vai tocar! Vai tocar!Subitamente, ao Alferes, deu-lhe a pressa e encaminhou-se para a saída.- Hoje não posso. Venho cá outro dia. E até lhe prometo um recital.Cá fora, vociferou consigo próprio.- Porra! Sou duro de ouvido. Não sei uma nota. Porque não lhe disse que era massagista?

A partir desse dia, assim que chegava ao Cais de Bambadinca, enfaixava a mão direita e punha o braço ao peito, para passar diante da Escola, com receio que a dama o fizesse cumprir a promessa.Já em Julho o Polidoro chamou-o.

A Professora perguntara-lhe se o Alferes estava melhor.Coitado, um tiro na mão. E sendo pianista… ainda pior… já não há recital.-

Cabral, você está doido! Que história é essa? Do tiro, do pianista, do recital?- Boatos! Invenções! Delírios! Coitada da Dona Violete. Imaginou!


As Estórias Cabralianas estão transcritas neste blog com a autorização do seu autor ProfºJorge Cabral, ao qual deixo aqui expresso o meu muito obrigado por nos permitir a partilha das suas Estórias.

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